NÃO DEIXE SEU CONDOMÍNIO VIRAR O PARAÍSO DAS DROGAS

Artigo publicado na Revista Direcional Condomínios – São Paulo (Rebecca Fonseca)

"Não da para imitar um avestruz e guardar a cabeça em um buraco, quando o assunto é o consumo de drogas dentro do condomínio. Mesmo que o problema ainda não tenha chegado a seu edifício ou condomínio de casas, uma boa campanha de orientação e prevenção contra o uso de drogas pode evitar que o condomínio residencial se transforme no "paraíso" das drogas, como alertam psiquiatras, psicólogos e policiais especializados no assunto."

Usuários se sentem seguros porque sabem que polícia não costuma entrar em condomínios, que têm sistemas de segurança próprios, pagos pelos moradores. Além disso, é comum os funcionários do edifício ou conjunto de casas encobrirem a utilização de entorpecentes pelos filhos de seus "patrões", com medo de perderem o emprego ou mesmo por serem usuários e até mesmo levarem o "material" para dentro do empreendimento. Assim, áreas de lazer afastadas e mal iluminadas, ou apartamentos de pais que ficam todo o dia fora, acabam se transformando em verdadeiros points para adolescentes curiosos ou já viciados no "barato" que o álcool, a maconha, a cocaína, o crack, o ecstasy e outras drogas podem proporcionar.

Outro motivo, que pode fazer síndicos e moradores fecharem os olhos para o problema, é o medo do empreendimento ficar conhecido como local de usuários de drogas e suas unidades serem desvalorizadas no mercado de imóveis.

Para o psiquiatra, conferencista e psicoterapeuta de jovens e famílias, Içami Tiba, a negação do problema no condomínio e pelos próprios pais - atitude bastante comum quando se descobre que o filho é um dependente químico - pode ser uma grande aliada ao consumo, porque demora-se para lidar com o problema e ajudar o usuário.

Segundo o especialista, quando o uso de drogas é detectado no condomínio - em quadras, áreas verdes, pistas de cooper, espaços com pouca iluminação, escadas e até mesmo no topo do prédio, contemplado muitas vezes, com uma bela vista - deve-se convocar uma reunião e conversar com todos os condôminos, principalmente com os pais de adolescentes, jovens e até mesmo crianças. É preciso fixar avisos, denunciando os locais onde as drogas estão sendo consumidas, iluminar essas áreas, redobrar a segurança nesses locais. Além, é claro, de um processo de orientação e prevenção contínuo no condomínio, com palestras realizadas por grupos e profissionais especializados, - busca de informações em vídeos, livros, revistas, na Internet; e encorajamento da família ao encaminhamento do dependente químico para tratamento.

O trabalho de conscientização pode começar com o envio de reportagens, como essa, a todos os moradores do condomínio. Grupos de apoio como o Grea (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas, do Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo), chegam a treinar moradores voluntários para serem multiplicadores do trabalho de prevenção contra as drogas em edifícios e condomínios horizontais. "Não se deve fazer uma "caça às bruxas" no condomínio, nem discriminar usuários e famílias que estão passando pelo problema. Cuidado também com campanhas autoritárias, que podem acabar estimulando os adolescentes e jovens a transgredilas", aconselha a psicóloga Eugênia Koutsantonis Pires.

Outra idéia bastante interessante, apontada pela psicóloga, é, ao urbanizar os pontos "obscuros" do condomínio, contratar monitores para a realização de atividades esportivas, de lazer e de cultura. "É preciso ensinar o adolescente a melhorar a qualidade de vida dele, às vezes ele tem problemas com a família, outras vezes na escola e em muitas ocasiões fica ocioso, sem entretenimento dentro do condomínio". Esportes, religião, trabalho e namoro são opções apontadas pelos especialistas para substituírem as festas de embalo regadas a muito álcool e drogas, sempre levadas para dentro do condomínio pelos próprios moradores e por seus amigos. A figura do traficante é mais difícil de ser encontrada nesses empreendimentos, mas a aliciação de um adolescente influente no grupo, que irá receber droga gratuitamente para viciar outros jovens é bastante comum no meio.

CRIANÇAS

Preocupada com a prevenção, de orientar e evitar o consumo de drogas por adolescentes, a Polícia Militar de São Paulo criou, há sete anos, o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (PROERD) para crianças de 9 a 10 anos, matriculadas na quarta série do primeiro grau. "Começamos com os pré-adolescentes, já que em média é com 12 anos de idade que os adolescentes têm o primeiro contato com as drogas", afirma o primeiro-tenente Carlos Eduardo Righi.

Cartilha da Proerd

Tenente Righi em sala de aula com alunos pré-adolescentes

Com mil policiais escolhidos a dedo, o programa é levado a escolas estaduais, municipais e particulares (é preciso solicitá-lo, informações (11) 3327-7752). Bastante didático (cartilha e vídeo), o programa apresenta 17 lições, aulas semanais de 45 a 60 minutos, durante um semestre. Há formatura com a participação dos pais, que antes do início do curso são reunidos para a explicação do programa e o pedido da colaboração deles no processo preventivo.

De acordo com o primeiro-tenente Righi, o PROERD trabalha temas como auto-estima, pressão dos colegas para a utilização das drogas, influência da mídia, malefícios para o organismo, para a família e para a sociedade. Para Righi, droga é toda substância que altera o funcionamento do corpo e da mente, com destaque para o álcool e para o cigarro - drogas vendidas livremente no mercado e associadas a festas e momentos de alegria. Além de afetar toda a família do dependente, o álcool é o grande responsável por boa parte dos acidentes de trânsito no Brasil.

Segundo dados do Grupo Interdiciplinar de Estudos de Álcool e Drogas (Grea), cerca de 15%nda população brasileira é alcoólatra. O tabaco e o álcool, seguidos pela maconha (atualmente, de 10 a 20 vezes mais potente que a utilizada nos anos 60), são consideradas as drogas de entrada ao vício pesado. Sem esquecer, que as drogas injetáveis (uso de agulhas infectadas), a exemplo da cocaína e heroína, estão diretamente ligadas a transmissão do vírus HIV (Aids). Para quem tem curiosidade em saber a quantas anda o preço médio das drogas no mercado, um cigarro de maconha, conhecido como pacau, custa R$5,00. O grama da cocaína, dependendo do grau de pureza, pode variar de R$10,00 a R$12,00. A pedra de crack varia de R$2,00 a R$5,00 e uma pílula de ecstasy (estimulante à base de anfetamina, bastante usado em danceterias) custa R$30,00, segundo informações do Proerd.

Uma questão importante apontada pelo tenente Righi e por especialistas, é que a dependência química (uso de drogas) é uma doença incurável, crônica e progressiva. Quem pára de se drogar fica com o vício "adormecido", um simples gole de bebida alcoólica ou uso de entorpecentes pode trazer toda a dependência de volta e de maneira mais forte.

ORIENTAÇÃO E SEGURANÇA

O Proerd também realiza palestras de orientação e prevenção em condomínios residenciais. O Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), da Polícia Civil, mantém um setor de cursos e palestras, que podem ser solicitados pelo telefone (11)3311-3547 e 3311-3356, que pode ser feito também pelos funcionários da segurança do condomínio. O telefone do Denarc para órgãos de encaminhamento a tratamento é (11)3311-3245. Ensinar esses funcionários a como tratar o assunto "drogas em condomínio" e a reciclagem profissional do pessoal são as dicas do oficial da PM, José Elias de Godoy, autor do livro Manual de Segurança em Condomínios, da Editora Igal.

Segundo Godoy, consultor na área de segurança, o problema de drogas dentro de condomínio tem se agravado nos últimos três anos. "Não se pode deixar de fazer um trabalho preventivo e redobrar a segurança, utilizando todos os equipamentos disponíveis, principalmente a instalação de câmeras do circuito interno de TV em locais estratégicos do condomínio ou onde há suspeita de utilização de drogas", diz.

Ele explica que o usuário não é criminoso, o traficante sim. Quem porta grande quantidade e vende entorpecentes responde por crime inafiançável. São exatamente esses elementos que o Denarc busca, e recebe denúncias pelo telefone 0800-11-1718. Dentro de residências a polícia só atua quando está comprovada a existência de drogas, dentro de seu interior; das 8 às 18 horas, policiais podem entrar em casas e apartamentos suspeitos sem mandado judicial. Após esse horário a residência fica inviolável, a não ser que haja tráfico no local, o que vai exigir flagrante ou mandado.

SINAIS DE ALERTA

Atualmente, o Grea oferece atendimento gratuito à população no Hospital das Clínicas, na cidade de São Paulo. Considerado Centro de Excelência para Tratamento e Prevenção de Drogas pela Secretaria Nacional Antidrogas (Senad), o grupo tem muito o que apresentar em condomínios residenciais. Membro do grupo e diretor da clínica de recuperação Montant, o psiquiatra Arthur Guerra Andrade, diz que onde há adolescentes e jovens há risco de consumo de drogas. Com relação a usuários ele chama a atenção a sinais como: adolescente mais calado, agressivo, com mau desempenho na escola, com maior necessidade de sono, chegando a cada dia mais tarde em casa e com nova turma de amigos. Suicídio ocorrido dentro do condomínio e estilo bizarro dos jovens se vestirem e comportarem também requerem averiguação. Com relação aos funcionários do edifício ou condomínio de casas, o especialista recomenda ficar atento ao excesso de faltas às segundas-feiras e à ocorrência freqüente de brigas entre funcionários.

EXEMPLO EM CASA

Para Andrade, o bom exemplo dado pelos pais dentro de casa pode contribuir e muito para que os adolescentes evitem o contato com as drogas. A opinião é compartilhada com o psiquiatra especializado na psicoterapia de dependentes químicos, Pérsio Ribeiro Gomes de Deus. "Hoje, as crianças se tornam adultas mais rapidamente; são estressadas, vivem em um mundo mais agressivo, violento, competitivo. Há pais muito ausentes, por isso a droga tornou-se um refúgio mágico para adolescentes", avalia. Segundo Dr. Pérsio, em condomínios residenciais o poder aquisitivo dos moradores costuma ser alto e as drogas são bastante difundidas nesses locais. "Por isso, a urgência em adotar uma política de orientação construtiva, atraente o bastante e capaz de atrair a participação e o engajamento dos adultos do condomínio."

De maneira geral, o psiquiatra explica que, no Brasil, o governo não dispõe de verba para tratamento de dependentes químicos, o número de leitos em hospitais é irrisório na rede pública. Vagas limitadas são encontradas nos hospitais das Clínicas, São Paulo e da Água Funda. Assim, trabalhos gratuitos como os desenvolvidos pelo Grea e pelo Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad), do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo - Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM) são tão importantes à população. A experiência de psiquiatras, psicólogos e demais profissionais que se dedicam ao Proad já foram reconhecidos pelo Ministério da Saúde e por órgãos internacionais de saúde. Orientação a síndicos e moradores de condomínios podem ser obtidas por meio de palestras, a preços acessíveis. Informações: (11)576-4472 e na Internet, www.epm.br/psiquiat/proad.htm

Há tratamentos também oferecidos a dependentes químicos por clínicas particulares e por centros de recuperação ligados a igrejas evangélicas e católicas, gratuitos ou com preços subsidiados; a família paga o tanto que pode (veja quadro).

O coronel aposentado da Polícia Militar de São Paulo, psicólogo, advogado e deputado estadual, Edson Ferrarini, divide sua experiência de 30 anos de trabalho com dependentes químicos, todas às terças e quintas-feiras, no Centro de Recuperação Coronel Edson Ferrarini, na Avenida Jabaquara, 2669, em frente à Igreja São Judas Tadeu, na zona sul de São Paulo.

Totalmente gratuito, o trabalho de recuperação de usuários de drogas consiste em elevar a auto-estima, orientar sobre os malefícios causados pelas drogas ao organismo e à família, além de premiar com uma medalha simbólica, a cada mês de abstinência, o ex-viciado. A presença do participante do programa de recuperação e de membros de sua família duas vezes por semana (às terças e quintas-feiras, a partir das 19h30). Pessoas de toda parte de São Paulo e do litoral vêm ouvir as palestras e os depoimentos de ex-usuários. Há muita neurolinguística, mas o clima de emoção consegue contagiar e fazer refletir todos os presentes.

Famílias que não têm como arcar com clínicas e tratamentos particulares, devem conhecer a casa. O psiquiatra Içami Tiba conhece o trabalho desenvolvido pelo Coronel Ferrarini e acha bastante válida a orientação oferecida. Gente famosa, como o jogador Dinei, do Corinthians, deixou o vício com a ajuda de Ferrarini.

Uma leitura indicada para síndicos e pais que não desejam perder seus filhos para as drogas é o livro Anjos Caídos, Como Prevenir e Eliminar as Drogas na Vida do Adolescente, do especialista Içami Tiba

O psiquiatra e psicoterapeuta, há 30 anos, especializado em jovens e famílias com problemas com as drogas, traz um capítulo específico sobre a utilização de drogas dentro de condomínios residenciais. O capítulo 9, Condomínios: Paraíso da Drogas, mostra que apesar de oferecer segurança e qualidade de vida, os condomínios não estão livres, como inocentemente pensamos, dos vícios da sociedade. E como se tornou imprescindível defender esses e demais espaços das drogas, e afastá-las de nossos adolescentes.

O livro traz um passo-a-passo de como tratar a questão no condomínio, além de mostrar como furtos de valores ou de toca-fitas, aparelhos eletrônicos e bicicletas dentro de condomínios residenciais podem dar o alerta sobre a utilização de drogas no ambiente, onde se planejou morar sossegado. "Geralmente, a venda desses objetos é utilizada na compra de entorpecentes", diz Tiba.

Já no capítulo 7, são apontados os locais na casa ou no condomínio (garagens, unidades desocupadas, em construção ou reforma, áreas verdes afastadas etc) onde os adolescentes costumam utilizar maconha, álcool, cocaína e outras drogas, e como fazem para disfarçar cheiros e vestígios. "O perigo não está somente nas ruas, os jovens podem experimentar drogas com os amigos dentro do prédio." Esses e muitos outros detalhes são encontrados no livro publicado pela Editora Gente.

O cientista Içami Tiba também realiza palestras em condomínios e monta programas específicos de acordo com a necessidade dos moradores do local.

 


Av. Contorno, 8289 - Loja - Gutierrez - CEP:30110-059 - Belo Horizonte - M.G. - PABX (0xx31)3071-8100
Email: prosind@prosind.com.br